março 07, 2009

Ensaio sobre a Cegueira - Livro


Acabei de ler o livro "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago, na verdade eu devorei este livro, pois o li em três dias e simplesmente adorei. Adorei!!
Sempre ouvi, e até mesmo achava, que Saramago era meio difícil e chato de ler por seus parágrafos intermináveis e por ser em português de Portugal, mas com este livro a leitura fluiu que foi uma beleza. Pode ser que isso tenha acontecido pelo fato de já ter visto o filme baseado nesta obra, que por sinal se manteve muito fiel ao livro (já comentei sobre o filme aqui), mas quando comecei a ler não conseguia parar, só queria ler mais e mais.
Acho que este livro trata muito bem como o ser humano lida com certas adversidades, neste caso a cegueira leitosa, onde as personagens pareciam estar mergulhadas de olhos abertos em um mar de leite, onde o confinamento coloca as personagens em uma situação de caos e estas passam a ser meros seres humanos animalizados tentando sobreviver e deixando os seus instintos mais básicos (fome, sexo, necessidades escatológicas, ...) falarem mais alto, perdendo assim toda e qualquer noção de uma sociedade civilizada.
O livro já começa duro e assustador, pois logo nas primeiras linhas lemos "Estou cego" e a maneira como Saramago escreve, com poucos pontos, muitas vírgulas e um discurso corrente, faz com os acontecimentos passem e se desenrolem pela nossa mente com uma velocidade absurda, e o fato do autor não dar nome a cidade, não datar os fatos ocorridos e manter no anomimato as suas personagens, só as conhecemos por pequenas alusões tais como "a mulher do médico", "o primeiro a cegar", "a rapariga de óculos escuros", faz com que a nossa imaginação entre em ação, em vários momentos parei a leitura para imaginar como seria e como agiríamos (sociedade, autoridades) em uma situação parecida.
Este livro nos faz pensar, mostra como o ser humano pode ser baixo, "descivilizado" e até mesmo grotesco em situações caóticas e fica uma pequena dúvida assustadora: "É assim que nós (seres humanos) realmente somos?".

Essas partes eu tirei do livro e elas realmente significaram algo importante para mim.

"A mulher do médico disse, Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, choro muitas vezes é uma salvação, há o casiões em que morreríamos se não chorássemos, ..." (p. 101)

"... o certo e o errado são apenas modos diferentes de entender a nossa relação com os outros, não a que temos com nós próprios, nessa não há que fiar, perdoem-me a prelecção moralística, é que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu o sinto-o e vejo-o, e agora ponto final na dissertação, vamos comer. Ninguém fez perguntas, o médico só disse, Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma. A alma, perguntos o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoas que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos escuros disse, dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." (p.262)

2 comentários:

Nessita! disse...

1º - Eu entro aqui e tomo um susto! Ficou simplesmente L-I-N-D-O o blog! Amei!

2º - Bateu meu recorde! Eu li em uma semana, eu acho. Tudo bem que tinha menos tempo, mas o livro é incrivelmente viciante. Não dá vontade de parar mesmo.

E a linguagem do Saramago é ótima, né? Apesar daqueles blocões de texto, flui, tem ritmo e a gente acompanha de modo que não consegue tirar os olhos das linhas. Agora tens que ler "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Ontem quase peguei para relê-lo hehehe

bjus!

Moni disse...

Lé, em primeiro lugar, o blog ficou LINDÍSSIMO!!! Em segundo lugar, uma vez tentei ler o Saramago, mas não consegui. Não era O Ensaio da Cegueira, era O Envangelho Segundo Jesus Cristo. Mas, um diz tentarei ler este aí...

bjsss