maio 27, 2008

Estação das Perdas

Há horas em nossas vidas que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio.
Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: as perdas do ser humano.

Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.
Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói...

E continuamos a perder.. E seguimos a ganhar. Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair... E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por quê? Perguntamos a todos e de tudo... Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás...
Estamos crescendo.
Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer, renascer (?)...

Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim: se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso. Receamos dar risadas da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da avó com a maior naturalidade do mundo e, ainda, falar bem alto sobre o assunto.

Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos... E vamos adolescendo... Ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pêlos, ganhamos altura... Ganhamos o mundo. Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos... Ah! E os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo. Aí de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo...

Todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade.
Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas, não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?(???)

E continuamos amadurecendo... Ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma.
E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer... Mas, perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos aquele beijo estalado... Mas, apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade... E assim, vamos ganhando tempo... Enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso... E perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir...

Perdemos a esperança. Estamos envelhecendo.
Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo... Afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer? Exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte. Mas, que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando. Que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede...

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente.. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie... Que tenhamos rugas e boas lembranças... Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia... Que sejamos racionais. Mas, lutemos por nossos sonhos... E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo. Mas, ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados.
Afinal, o que é o tempo?

4 comentários:

Nessita! disse...

bah, Lé, lindo esse texto. melhor só a verdade que ele traz: a gente perde tanto, ganha tanto, e no final acaba envelhecendo sem certezas.

como tenho pensado nisso. parece que tu leste meus pensamentos...

bjus

Guiga disse...

Muito lindo mesmo! De onde tiraste?
O problema do adulto é se preocupar muito com o que os outros pensam...sendo assim, acho que pra manter "a criança que vive dentro de nós" é necessário fazer umas coisas sem-noção de vez em quando! Tipo dançar no fliperama! Hehehehe!
Muito bom o texto mesmo!!!!!

Nessita! disse...

acho que estamos precisando de outra sessão da terapia dançar no fliperama... hehehe :D

Moni disse...

perdas, danos e ganhos... a vida é assim memso. alguém disse que seria fácil?

bjs